Programa


A agência social dos elementos químicos
Pedro P. Ferreira
2018

Este programa de pesquisa propõe concentrar investigações voltadas para as múltiplas formas de participação dos assim-chamados “elementos químicos” em processos e eventos humanos e sociais. Elementos químicos são aqui entendidos como agentes sociais na medida em que, associando-se a outros agentes (humanos, máquinas, objetos, artigos científicos etc.), componham um “coletivo”, i.e., “uma ação que entrelaça diferentes tipos de forças, em função de suas diferenças”, ou “uma expansão da natureza e da sociedade” (Latour 2005:74-5, 260). E a agência social dos elementos químicos é aqui investigada por meio de seus rastros discursivos na mídia (impressa e eletrônica), nas artes, na legislação e em publicações científicas.

O iodo (I; 53), por exemplo, participa da composição de nosso coletivo pelo menos desde quando, no século XIX, pouco depois de ser isolado quimicamente, passou a ter sua ingestão regular relacionada ao bom funcionamento da glândula tireóide. A Lei Nº 6.150, de 3 de dezembro de 1974, é um exemplo de rastro jurídico dessa agência social do iodo, por obrigar todos os fabricantes de sal a adicionar o elemento ao seu produto, na forma de iodeto de potássio (KI), segundo as determinações do Ministério da Saúde.

Curiosamente, pode acontecer de alguém ignorar completamente a existência do iodo – como quando se diz: “nunca ouvi falar”. Não seria este o caso dos povos antigos que usavam algas marinhas e derivados para tratar o bócio? E não seria este o caso da maior parte das pessoas ainda hoje, para quem a palavra “iodo” não possui nenhum referente concreto? Mas se, por um lado, é perfeitamente possível viver num mundo sem iodo e os outros elementos químicos (vale repetir, esta é a situação da maior parte da humanidade durante a quase totalidade de sua história), por outro lado pode ser muito difícil ignorar a agência social do iodo quando se vive num mundo social que já inclui, entre seus agentes, esse elemento químico. Em outras palavras: a existência de expectativas sociais de que o iodo seja reconhecido como agente ao qual se deve atribui processos relevantes (expectativas verificáveis, por exemplo, nos currículos escolares, nos manuais de primeiros socorros e na legislação) transforma o desconhecimento do iodo e de sua ação em uma desvantagem, ou mesmo num problema.

Químicos e físicos já confirmaram experimentalmente, até o presente, a existência de 118 elementos químicos diferentes. São 118 agentes sociais não-humanos aos quais, assim como no caso do Iodo, diferentes efeitos e ações socialmente significativos não apenas podem ser atribuídos ou associados, como efetivamente o são, com maior ou menor frequência. O objetivo deste programa de pesquisa é jogar luz sobre esta vida social dos elementos químicos, sobre as formas pelas quais eles participam ativamente da vida humana em sociedade, por meio de pesquisas desenvolvidas em diferentes campos das ciências sociais e humanidades, como: Antropologia, Arte, Culinária, Demografia, Design, Direito, Filosofia, Geografia, História, Linguística, Política, Psicologia, Sociologia e outros.

Além de exigir formulações teórico-conceituais e metodológicas pouco ortodoxas nas ciências sociais, este programa também pressupõe um engajamento ativo na promoção daquilo que poderíamos, no sentido específico que lhe deu Gilbert Hottois, chamar de “cultura tecnocientífica”: uma intuição, formulável simbolicamente e compartilhada culturalmente na forma de valores éticos, sobre os poderes e perigos de um mundo tecnicamente mediado pela ciência. Assumindo que vivemos em um mundo social no qual a ciência tem prerrogativas quase religiosas na legitimação de ações, parece claro que a intuição acerca da agência dos elementos químicos tende a favorecer a ação daquele que a essa agência se associa. Confiamos, portanto, que cada avanço no conhecimento acerca da agência social dos elementos químicos pode também ensejar um avanço na socialização do poder e da responsabilidade que ele oferece.